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Gravidez precoce aumenta em Angola

Com 12 e 13 anos de idade e um caso aos 11 anos

Na Lucrécia Paim, cerca de 62 % das cesarianas realizadas em Junho deste ano foram em adolescentes

Uma gravidez na adolescência tem uma influência enorme no seio da família. Desestabiliza-a porque, quer a jovem, quer os pais, não estão preparados para receber uma notícia destas. Psicologicamente, a jovem ressente-se porque não se sente enquadrada na escola e acaba por interromper os estudos e a sua formação”. O director da maternidade Lucrécia Paim, Abreu Pecamena, sugere que os currículos escolares enfatizem mais a educação sexual. “É preciso desenvolvê-los e adaptá-los à nossa realidade para que as pessoas compreendam melhor a necessidade de educar os nossos filhos desde a tenra idade para entender o fenómeno da sexualidade”. Em entrevista à margem da palestra que proferiu na 1ª Feira da Mulher Angolana, que decorreu este mês, na FIL, co-organizada pelo Jornal da Saúde, revelou que das 687 cesarianas realizadas, em Junho de 2011, na maternidade que dirige, 425 foram em adolescentes.

 

Pode enquadrar o problema da gravidez precoce sob o ponto de vista da saúde pública?

A gravidez precoce, ou a gravidez na adolescência, é um tema de preocupação mundial, com tendência a crescer. Sob o ponto de vista da saúde pública, o problema está ligado à falta de informação dos adolescentes aquando da passagem à fase adulta, quando os jovens se vão descobrindo a si próprios, pensam que são imunes e que nada lhes acontece. O grande dilema é que, quando se fala em anti-concepção, os jovens não se identificam, não sentem esse problema como sério, não sabem o que é a fisiologia de uma gravidez, não vêem o perigo.

É uma questão de responsabilidade, quer da mulher, quer do homem?

Exactamente. Há também o problema socioeconómico. A jovem mulher, em termos fisiológicos, está mais avançada que o homem. Sente-se atraída, aliciada, por homens já com a maioridade adquirida. As primeiras relações sexuais são com pessoas de mais idade e as jovens são irresponsáveis a ponto de terem relações não protegidas.

Quais são as principais consequências de uma gravidez precoce?

As consequências são de vária ordem: social, psicológica e física. Social, porque uma gravidez na adolescência tem uma influência enorme no seio da família. Desestabiliza-a porque, quer a jovem, quer os pais, não estão preparados para receber uma notícia destas. Psicologicamente, a jovem ressente-se porque não se sente enquadrada na escola e acaba por interromper os estudos e a sua formação. Vai ter assim um impacto social muito grande.

Fisicamente, é uma transformação muito grande. Uma gravidez vai diminuir a sua capacidade de crescimento, os seus hormónios já não têm a mesma capacidade de “secreção”. Ainda em termos físicos, os estudos demonstram que há muita tendência ao aborto durante a gravidez na adolescência. Esses abortos podem ser espontâneos ou provocados. Os provocados são por vezes feitos em condições precárias e em locais não apropriados, o que resulta muitas vezes em problemas de incapacidade de gravidezes futuras.

A falta de informação também não ajuda. É difícil sensibilizar as famílias para falar sobre sexualidade. Não basta a proibição, que pode ser contraproducente, pois o jovem vai fazer o contrário, porque é uma idade em que as pessoas querem fazer descobertas.

Tem números que caracterizem esta problemática no país?

Não dispomos de um estudo nacional, mas apenas a nossa observação. As evidências dizem-nos que há um número crescente, sobretudo em Luanda. Mas posso dar um indicador. O número de cesarianas que fizemos, em Junho de 2011, na Maternidade Lucrécia Paím, foi de 687, em que 425 eram adolescentes (até aos 18 anos, inclusive). Este número dá uma noção do que está a acontecer. Acresce que começa a haver gravidezes aos 13 anos e aos 12. Temos até um caso de gravidez aos 11 anos. A própria gravidez apresenta, nestes casos, diversas complicações. Este grupo de estudo detectou abortos, partos prematuros, crescimento intra-uterino restrito, isto é, o bebé cresce menos que o normal, pré-eclampsia, que é a tensão alta na mulher, e a verdade é que a incidência de mortalidade é maior neste grupo, por causas de que já referimos.

Que conselhos e recomendações dá aos pais?

As responsabilidades são de carácter institucional e familiar. Os pais são o núcleo de informação. Sugeria ao Ministério da Educação que os currículos escolares enfatizem mais a educação sexual. É preciso desenvolvê-los e adaptá-los à nossa realidade para que as pessoas compreendam melhor a necessidade de educar os nossos filhos desde tenra idade para entender o fenómeno da sexualidade. Namorar não significa que as pessoas tenham que ter relações sexuais. Sou pai e penso que devemos intensificar as conversas com os nossos filhos, fazê-los entender que na adolescência os impulsos sexuais começam a desenvolver-se e tem de haver um controle.

E quanto à contracepção?

A contracepção não é só para a mulher, é para o homem também. O melhor anticonceptivo é a abstinência e, a seguir, o preservativo que previne não só a gravidez, como as doenças sexualmente transmissíveis.

 

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